Sobre primeiras vezes

Sobre primeiras vezes: a primeira vez que dirigi na estrada

Eu tenho carteira de motorista há bastante tempo, mas comecei a dirigir de fato nos últimos seis anos. Dirigir não é um problema pra mim, mas também não posso dizer que gosto. Quando é necessário, eu dirijo. Mas, podendo evitar, não faço questão nenhuma.

Há alguns dias decidimos fazer uma viagem de última hora. E quando eu digo de última hora, foi realmente assim: por volta das 15h decidimos que sairíamos bem cedo no dia seguinte.

Era uma viagem longa, cerca de sete horas de estrada. Eu estava super tranquila, afinal é sempre meu marido quem dirige nas viagens. Arrumei nossas coisas, separei as comidinhas para o trajeto e vida que segue.

Até a manhã seguinte.

Estávamos nos arrumando para sair quando meu marido simplesmente virou pra mim e disse:

“Hoje tu vai dirigir. É muito tempo de viagem e vamos revezar.”

Naquele momento eu congelei.

Foi um misto de surpresa com indignação. Por quê? Por que hoje? Eu não quero!

Mas deixei quieto. Na minha cabeça, se eu simplesmente não tocasse mais no assunto, existia uma boa chance de ele esquecer.

Começamos a viagem normalmente, como se aquela conversa nunca tivesse acontecido.

Mais ou menos duas horas depois, paramos em um posto para ir ao banheiro, esticar as pernas e descansar um pouco. Foi quando ele anunciou:

“Daqui pra frente tu pega.”

Resmunguei. Protestei. Não adiantou.

Ele argumentou que não era justo dirigir sozinho durante uma viagem tão longa se eu também sabia dirigir. Além disso, serviria como experiência, já que eu nunca tinha dirigido na estrada.

E ali eu percebi que tinha perdido aquela guerra antes mesmo dela começar.

Tinha a questão do cansaço, do companheirismo, do revezamento… e ainda por cima o argumento da experiência. Não tinha nem como competir com tudo isso.

Fui para o banco do motorista.

E começou a aventura.

A primeira coisa que avisei foi:

“Eu não vou ultrapassar ninguém. Vamos levar o dobro do tempo, mas eu vou ficar tranquila atrás de todo mundo.”

Assim que saímos do posto, bateu o nervosismo. Aquela ansiedade que aparece quando vamos fazer alguma coisa nova sem saber exatamente o que esperar.

Por sorte, a estrada estava tranquila naquele começo. Entrei na pista pensando:

Pronto. Agora a coisa ficou séria.

Nos primeiros minutos fui sentindo a estrada e tentando entender como seria aquilo na prática.

E, conforme o medo foi passando, comecei a relaxar.

Até pensar:

Cara… eu posso fazer isso.

Estava ficando tudo muito mais tranquilo.

Até aparecer o primeiro caminhão na minha frente.

Imediatamente avisei:

“Não vou passar. Vamos ficar quietinhos aqui atrás.”

Meu marido não forçou nada. Só foi me tranquilizando e lembrando que eu podia fazer tudo no meu tempo.

Fiquei ali atrás por um tempo, até chegar um momento em que as condições estavam tranquilas e eu me senti segura o suficiente para tentar minha primeira ultrapassagem.

Me enchi de coragem e pensei:

Lá vou eu!

Deu aquele frio na barriga e, quando terminei, veio uma sensação maravilhosa de:

Eu consegui!

E acho que ali aconteceu a virada.

Depois disso fui ganhando cada vez mais confiança. O que antes parecia assustador começou a parecer simplesmente… normal.

Pouco tempo depois eu já estava muito mais à vontade, tomando minhas próprias decisões e percebendo que dirigir na estrada não era aquele bicho de sete cabeças que eu tinha imaginado.

Daí em diante foi tranquilo.

Claro que exige bastante atenção e concentração, mas difícil mesmo eu não achei.

A ansiedade passou, o nervosismo também, e acabei dirigindo um bom tempo — algo em torno de 200 km.

Mas, como nem tudo são flores, descobri também a parte que eu não gostei: é cansativo.

Depois de um tempo eu já estava louca para trocar novamente. Queria relaxar a cabeça, os braços, o corpo inteiro e simplesmente voltar para o banco do passageiro.

No fim das contas, minha primeira experiência dirigindo na estrada foi muito melhor do que eu imaginava.

Eu comecei dizendo que não ultrapassaria ninguém e terminei a experiência muito mais confiante do que comecei.

Descobri que exige atenção, concentração e cansa bastante — mas aquele bicho de sete cabeças que eu tinha criado na minha cabeça simplesmente não existia.

E talvez seja essa a graça das primeiras vezes: algumas parecem enormes antes de acontecer. Depois que a gente vai lá e faz, percebe que eram muito mais simples do que pareciam.

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